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Mulheres no cooperativismo e na economia solidária: trabalho e ousadia

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Pesquisa inédita realizada pela Unicafes, uma das centrais afiliadas à Unicopas, revela que apenas20% das mulheres cooperativistas participam de comissões diretivas; falta de apoio e motivação são entraves. Ousadia é a palavra-chave


“Mulheres que ocupam cargos estratégicos dentro das cooperativas se ousaram e enfrentaram todo o contexto social que poda a mulher. Elas se autoafirmaram: eu posso! Eu consigo! Eu tenho habilidade para assumir”. Foi o que disse Iara de Andrade Oliveira, Secretária Nacional de Mulheres da Unicafes (União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária), uma das centrais afiliadas à Unicopas (União Nacional das Organizações Cooperativas Solidárias). A constatação veio após o resultado da pesquisa inédita “Participação das mulheres em espaços cooperativos”, organizada e realizada pela Unicafes, em parceria com a UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), com o Observatório AFLA (Agriculturas Familiares Latino-Americanas), e com a REAF (Reunião Especializada sobre Agricultura Familiar do Mercosul ampliado).

Professora e alunos da UNILA no I Encontro das Mulheres Rurais do Mercosul.

Inspirada no Diagnóstico de Gênero do Cooperativismo Solidário feito no Uruguai em 2018, a pesquisa foi realizada no Brasil durante o I Encontro das Mulheres Rurais do Mercosul, que ocorreu em outubro do ano passado, em Medianeira, no Paraná, e entrevistou 173 mulheres. Clique aqui e leia a Carta de Medianeira em português e em espanhol.

O evento foi promovido pela Unicafes, REAF e Cresol (Cooperativa Central de Crédito Rural com Interação Solidária).

Reunião do I Encontro das Mulheres Rurais do Mercosul.


Apenas 20% das mulheres cooperativistas participam de espaços de decisões


A pesquisa “Participação das mulheres em espaços cooperativos” constatou que somente 20% das mulheres entrevistadas participam de comissão diretiva, em assentos de agente, conselheira fiscal, coordenação, diretora conselheira, gerente geral ou presidência, por exemplo. “Desde que o mundo é mundo, a mulher sempre foi excluída dos espaços públicos. Conseguimos ter esse acesso há pouco tempo. As mulheres que hoje trabalham fora, a maioria, tem de cumprir uma tripla jornada e precisam contar com uma estrutura de apoio que dá condições para que ela possa estar inserida nesses espaços”, destacou Iara com um dos pontos principais para essa baixa representatividade. “Meu exemplo: para que eu possa ocupar esse cargo de direção, eu conto com toda uma estrutura com relação ao meu filho, ao cuidado da casa, que me permite estar aqui. A maioria das mulheres nem sempre pode contar com isso”.

Além disso, Iara ressaltou que muitas instituições não disponibilizam essas condições, como o acesso a creche. “O estado não enxerga a creche como um instrumento de apoio a mulheres trabalhadoras, mas como um direito da criança. Então, as mulheres das cooperativas passam por essas dificuldades, muitas, por não contarem com uma estrutura de apoio”, disse.

Com relação a mulher jovem, o desafio, segundo Iara, é ainda maior. “O que mais pesa neste caso é a experiência. Por isso, as cooperativas ficam com receio de possibilitar a participação ativa das juventudes. Salvo em empreendimentos específicos de jovens”, explicou a secretária.

Todo esse contexto faz com que as mulheres se sintam desmotivadas e inseguras a ocuparem cargos de direção. Entre os fatores que elas acreditam afetar essa participação, o mais significativo é a falta de apoio e oportunidade, representando 35% das respostas. “Esse sentimento vem justamente pela falta de estrutura e aparato. Elas se sentem inseguras, se preocupam com a opinião da família, do marido. Em muitos casos, o marido proíbe ela de passar muito tempo fora de casa, ou mesmo são vítimas de violência institucional, que é quando são desestimuladas a assumirem cargos diretivos estratégicos por acreditarem não serem capazes”.


Falta de divisão das tarefas domésticas ainda é empecilho

De acordo com Iara, dependendo do contexto social onde a mulher está inserida, ela acaba sendo impedida de trabalhar. “Desde que a sociedade se consolidou, o trabalho privado, doméstico, foi destinado à mulher. Entra o desafio de discutir dentro das famílias e mesmo dentro das cooperativas a divisão sexual do trabalho. O trabalho doméstico não é exclusivo das mulheres, mas de toda a família. Por isso, o trabalho de formação, sensibilização e conscientização é fundamental e é um dos desafios das cooperativas”, afirmou.

Nesta perspectiva, promover atividades de formação sobre o cooperativismo em ações voltadas ao empoderamento feminino, assim como ações que também envolvam as famílias e as pessoas de convivência da mulher realizados pelas centrais afiliadas à Unicopas é essencial. “Trabalhar a importância das mulheres dentro das cooperativas, vejo como uma das nossas missões. A gente não consegue trabalhar a melhoria da qualidade de vida sem antes trabalhar o protagonismo da mulher, principalmente da mulher jovem”, salientou Iara.



Projeto entre Unicopas e União Europeia promove protagonismo da mulher

Promover a equidade de gênero no Brasil não é uma das tarefas mais fáceis. O país ocupa a quinta posição em feminicídio no mundo – que é quando uma mulher é assassinada por razão de gênero, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). Debater e articular ações que propiciem a equidade de gênero é tão urgente que a ONU colocou a pauta como o quinto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Vale lembrar, ainda, que na 62a. Sessão da Comissão sobre o Status da Mulher (CSW) das Nações Unidas, que dedicou o ano de 2018 ao empoderamento das mulheres e meninas rurais, destacou-se o potencial das cooperativas para a autonomia econômica das mulheres rurais. Além disso, de acordo com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), se os países latino-americanos conseguissem equiparar a participação da mulher ao homem no mercado de trabalho, o PIB (Produto Interno Bruto) da região aumentaria em 16%. No entanto, um relatório de gênero divulgado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial para a América Latina mostrou que, no ritmo atual, vai demorar 64 anos para que essa igualdade seja conquistada pela América Latina.

Por isso, uma das prioridades da parceria firmada entre a Unicopas e a União Europeia no projeto “Fortalecendo a Rede Unicopas” é aumentar a participação das mulheres e das juventudes nas instancias de governança da organização, nos espaços de incidência política e de controle social das políticas públicas. Para isso, diversas ações, como formação e capacitação de lideranças, serão desenvolvidas ao longo dos três anos de execução do projeto.

Além de promover o protagonismo feminino, a Unicopas acredita que a economia e o cooperativismo solidário podem contribuir efetivamente para que o Brasil alcance os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, neste caso, em especial, o ODS 5: Igualdade de Gênero. Isso porque muitos empreendimentos são formados por mulheres, promovendo diretamente a autonomia econômica das mulheres, sua participação no empreendimento e o fomento do empoderamento feminino.


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